quarta-feira, 19 de julho de 2017

Cartas de amor



Chamei Drummond pra tomar uma cerveja no Chico Mineiro. Ele fechou a cara e respondeu mal humorado:
__ Não vou em bar de cruzeirense. Sou vascaíno, uai!
Esses mineiros com “oitenta por cento de ferro nas almas” são difíceis que só. Pensei. Mas isso também é normal. Dois mineiros sistemáticos nunca são fáceis de chegar num acordo sobre qualquer assunto. Depois de muita negociação – porque toda conversa entre dois mineiros precisa de negociação –, chegamos num entendimento e fomos para o Feitiço Mineiro.
Pedimos uma Antarctica, duas cachaças e uma porção de torresmos.
__ Drummond, você precisa se atualizar.
__ Eu? Por quê?
__ Aquele seu poema "As namoradas mineiras" não funciona mais nos dias de hoje.
__ Por que não funciona mais?
__ Uai! Ninguém manda mais carta pelos Correios!
__ O amor por cartas é mais romântico...
__ Aqui ó... tá vendo... nem são mais 215 municípios em Minas! São 853! Totalmente desatualizado!
__ O número de municípios não muda o sentido do poema...
__ Drummond, hoje não se usa mais mandar cartas.
__ Por que não se usam mais cartas?
__ Elas demoram muito pra chegar, Drummond.
__ O mundo de vocês é muito imediatista. No meu tempo era até gostoso ficar esperando por uma carta.
__ Olha isso aqui, meu amigo: “põe o amor escrevendo no mimeógrafo!” Isso nem existe mais. É pura peça de museu!
__ Se não usam mimeógrafos e cartas, como as pessoas de hoje fazem?
__ Drummond, hoje para se conhecerem, as pessoas usam o Tinder?
__ Tinder? O que é isso?
__ É um aplicativo de celular que aproxima as pessoas.
__ Mas as pessoas conversam e namoram usando esses aparelhinhos que vocês nunca tiram das mãos?
__ Isso mesmo, Drummond! Acho que você precisa atualizar sua poesia. Sugiro trocar as cartas pelo Tinder e o mimeógrafo pelo celular. Fica bem mais atual.
Drummond parou, pensou, olhou para o movimento na rua, chamou o garçom e pediu mais uma cerveja. Depois, batendo os dedinhos finos na mesa, olhou bem nos meus olhos e disse calmamente com sua voz baixa:
__ Aguinaldo, esse negócio de Tinder e celular até pode ser mais atual e mais rápido, mas eu nunca vou trocar o romantismo de uma carta por nada mais avançado. O cheiro do papel, a beleza da letra feminina e a gostosa ansiedade da espera são insubstituíveis. Prefiro minhas cartas que esse seu tal de Tinder.
No fim de nossa conversa, acabei concordando com o velho mineiro: nada pode substituir o verdadeiro romantismo. Ao sair do bar, desinstalei o aplicativo e, desde então, tenho mandado minhas cartas. As cartas demoram mais, eu sei. Mas eu não estou mais ansioso. Cheguei a conclusão que não quero relacionamentos rápidos e superficiais, como os dos aplicativos. Quero relações longas e românticas como as cartas que tenho trocado.

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